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Luminárias Literárias

  • Foto do escritor: Buda
    Buda
  • 23 de jun. de 2024
  • 3 min de leitura

No mundo distante de Gabriel, as luminárias de lava não eram apenas itens de decoração, mas manifestações físicas dos livros que outrora existiram. Cada uma dessas luminárias era uma cápsula do tempo, contendo não apenas histórias e narrativas, mas também elementos tangíveis que refletiam o conteúdo dos livros que representavam. Para os habitantes desse futuro, essas luminárias eram tesouros culturais, resgatando uma época em que a palavra escrita era venerada.


Gabriel vivia uma vida solitária e meticulosa. Seu trabalho como produtor de trabalhos acadêmicos era sua única fonte de satisfação, um refúgio seguro de uma existência monótona e rotineira. Ele se afundava em seus projetos, ignorando suas próprias necessidades físicas e emocionais. Distúrbios alimentares, insônia crônica e anemia eram seus companheiros constantes, somando-se à sua crescente apatia e isolamento social.


Em busca de algum tipo de conexão emocional, Gabriel frequentava as "livrarias" clandestinas espalhadas pelo condado do nordeste. Nestes lugares sombrios, ele encontrava não apenas livros encapsulados em luminárias de lava, mas também breves momentos de interação humana. No entanto, esses encontros eram superficiais e fugazes, incapazes de penetrar na solidão que consumia sua alma.


A venda e distribuição de livros pela internet havia sido criminalizada, com a justificativa de que apenas os livros físicos podiam garantir a autenticidade de sua essência. Era uma tentativa desesperada de preservar a cultura em um mundo onde a virtualidade ameaçava apagar as fronteiras entre realidade e ficção.


Gabriel, devido à natureza de seu trabalho, tinha acesso a uma vasta gama de literatura, embora suas leituras fossem puramente profissionais e desprovidas de qualquer prazer intelectual genuíno. Ele ansiava por algo mais, algo que desse sentido à sua existência vazia.


Um dia, em uma das livrarias escondidas, Gabriel descobriu uma luminária de lava peculiar. Seu conteúdo líquido refletia fragmentos de uma história desconhecida para ele até então. Dentro da luminária, ele viu símbolos estranhos: fragmentos de ossos humanos, traços de sangue seco, e um aroma metálico que pairava no ar. Era como se a luminária estivesse tentando contar uma história por meio de imagens e sensações.


Intrigado e confuso, Gabriel começou a se aprofundar na investigação daquela luminária específica. Sua jornada o levou a encontrar outros exemplares, cada um mais intrigante que o anterior. Ele mergulhou em gêneros variados: mistério, ficção científica, romance histórico, cada um revelando uma faceta diferente da condição humana e de suas próprias angústias.


Enquanto isso, sua vida pessoal continuava estagnada. Gabriel mantinha distância das pessoas, incapaz de se abrir para qualquer forma de intimidade emocional. Suas amizades eram escassas e romances, efêmeros. Ele se tornou um espectador de sua própria vida, observando-a passar sem participar plenamente.


À medida que sua jornada de descoberta literária avançava, Gabriel começou a questionar sua própria existência. Ele percebeu que, embora pudesse compreender a complexidade das histórias contidas nas luminárias, ele mesmo era um enigma não resolvido. Sua busca por valores significativos na vida o levou a confrontar suas próprias fraquezas e limitações, assim como suas qualidades escondidas sob uma fachada de exaustão e desinteresse.


Foi somente no clímax da história que Gabriel se deparou com uma luminária especial. Dentro dela, ele encontrou um livro antigo e desgastado, cujas páginas amareladas continham palavras que pareciam ecoar dentro de sua própria alma. Era a Bíblia Sagrada, um símbolo de luz espiritual que iluminava os cantos mais escuros de sua existência.


Neste momento de epifania, Gabriel finalmente compreendeu o verdadeiro propósito das luminárias de lava e de sua própria jornada. Eles não eram apenas objetos inanimados, mas portadores de conhecimento e sabedoria que podiam transformar vidas. Ele percebeu que sua busca por pertencimento e amor não podia ser encontrada nas páginas dos livros, mas sim na capacidade de abrir seu coração para o mundo ao seu redor.


Assim, o homem solitário que um dia se refugiou na segurança dos livros e luminárias de lava encontrou, através de sua própria busca, a coragem de se reconectar consigo mesmo e com os outros. Ele aprendeu que a verdadeira essência da vida não reside na perfeição das histórias que lemos, mas na imperfeição e na complexidade de nossas próprias jornadas pessoais.


Fim

 
 
 

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